
Eu própria constatei, no comportamento de um neto, o que denominei efeito “Chapeuzinho Vermelho”. Contei-lhe essa história por vários anos, repetindo-a quantas vezes me solicitasse. Ele, uma criança desprovida de atitudes agressivas, identificava-se com o lobo mau. Algum tempo depois, passou a disputar brinquedos com outras crianças, do que antes era incapaz.
Considerando os estudos citados e minha observação particular, resolvi ler, repetidamente, romances que provocassem em mim forte reação emocional. Fazia-o até meu sentimento apaziguar-se. Obtinha então uma mudança interna sem necessariamente eu tomar consciência da causa de minha reação. Agora, tenho como hipótese que qualquer obra de ficção ou mesmo real, que relate dramas e conflitos humanos de forma honesta, ajuda a dirimir dificuldades emocionais. Levei esta estratégia de leitura repetida à clínica e venho percebendo resultados semelhantes aos meus.
Concluí, portanto, que este tipo de literatura pode ser usado como instrumento da práxis psicológica. Em qualquer das escolas. O behaviorista certamente explicará a mudança de conduta como resposta a estímulos presentes no texto; o psicanalista freudiano a interpretará como já o faz no respeitante à leitura ou audição de contos de fadas; o junguiano, que reconhece o dom dos contos populares, além da interpretação dos freudianos, talvez a considere, em alguns casos, provocada pela sintonia com algum arquétipo representado na história; o psicólogo humanista provavelmente a julgue proveniente da liberação de bloqueios ao impulso evolutivo, pela ação do conteúdo literário; o transpessoal, por sua vez, explique-a como elevação do nível da consciência por influência da leitura. Qualquer que seja a justificativa, o elemento capaz de criar a experiência transformadora está na obra literária, a técnica é da práxis científica. A arte e a ciência solidarizando-se para facilitar a vida humana.
Essa conclusão contribuiu para que me dedicasse, irremediavelmente, à atividade que venho exercendo nos últimos anos: escrever romances, poesias e contos. Espero assim elaborar novos instrumentos de mudanças, que atuem primeiro em mim ao escrever, segundo em quem os utilizar em seu proveito. Creio que, de acordo com Jung, minha alma encontrou seu significado. Mas, percebo, este significado não é estático, é um trem em movimento, que segue eternamente.
MORGANA GAZEL / ESCRITORA E PSICÓLOGA
Autora de romances, poesias e contos.