3 de maio de 2012

O destino de cada um - publicado, em 03/05/2012, no jornal A Tarde


Segundo James Hillman, psicólogo junguiano, assim como uma semente de carvalho está fadada a se tornar uma árvore, trazemos um destino ou uma vocação que devemos desenvolver. Costumo chamar essa vocação de “o desejo mais intenso que acalentamos no recôndito de nossas almas” e acrescento: Se a semente cair num terreno árido, pode não chegar à plenitude do seu destino, quiçá jamais alcançá-lo. Corremos o mesmo risco e talvez nem sequer consigamos reconhecer esse desejo mais exigente, caso sejamos submetidos a uma educação ou condições sociais alienantes. No entanto, apenas quando buscamos realizá-lo, vislumbramos o real significado da vida e os demais desejos ficam num plano secundário.

A descoberta do destino pode ocorrer com qualquer um, o mais difícil talvez seja arriscar-se a segui-lo. Vislumbrei-o aos cinquenta e oito anos: escrever histórias fictícias que tratem de dramas humanos reais. Sabia que não seria fácil, com esta idade, a maioria pensa em se aposentar! Apesar disso, decidi arriscar. 

Como jamais havia escrito ficção, minha experiência era com textos acadêmicos, fiquei aguardando o que chamei “inspiração divina”. Não tinha muita esperança em ser atendida, pois minha relação com Deus sempre foi meio problemática; nunca o aceitei como dizem que Ele é. Por isso recorri ao Deus que eu própria inventei, naturalmente à minha semelhança, em vez de recorrer Àquele inventado pelos pregadores religiosos, à semelhança deles. Enquanto aguardava a dita inspiração, lia romances com olhos de aprendiz, comprei uma nova gramática, um livro sobre comunicação, novo dicionário, tomei um curso relâmpago de escrita literária, comecei a descrever ambientes e esbocei um conto.


Dois meses passaram-se e nada aconteceu até que um dia, ao me dirigir a um restaurante, de lá iria para meu consultório, minha mente foi invadida por um pensamento que se repetia sem parar: “Volte para casa”. Não poderia voltar, tinha um compromisso de trabalho. Mas, no restaurante, o pensamento insistiu tanto que resolvi barganhar: “Tudo bem, volto se todos os clientes estiverem tranquilos.” Telefonei. Para minha surpresa, nenhum deles fazia questão de minha companhia naquela tarde. Voltei. Ao chegar a casa, senti um sono tão danado que me joguei na cama sem trocar de roupa. Acordei à noite com o enredo de uma história, o perfil psicológico dos personagens principais, seus nomes e os títulos dos capítulos iniciais. 

Assim comecei a gestar o primeiro romance e tenho colhido flores e espinhos ao longo dessa caminhada. Agora estou convencida de que este é meu destino. Espero que logo encontre o seu, se isso ainda não aconteceu. 

Morgana Gazel
Autora do livro Enseada do Segredo


Nota 1: Esta é uma versão do  artigo "Um destino: A floresta literária", adaptada para o jornal.

Nota 2: Agora, 2013, a  3ª edição do romance ENSEADA DO SEGREDO e a 1ª edição do LIBERDADE NEGADA, ambos de minha autoria, estão sendo  publicadas pela COGITO EDITORA.

7 comentários:

Su Palanti disse...

Morgana querida... Como sempre, texto impecável. O que posso dizer é que flores e espinhos é o que um escritor melhor sabe colher... É o nosso destino. E tem coisa melhor na vida?
Bjusss

Renata Rimet disse...

Totalmente didático o seu texto, ensina onde buscar recursos para melhorar a escrita e a interpretação, deixa claro que o empenho é fundamental para que os objetivos e metas sejam alcançados,e principalmente nos ensina a observar melhor os detalhes da vida, tudo aquilo que deixamos passar sem a devida importância por conta de uma imensa pressa de viver e realizar coisas pontuais...lendo e aprendendo, vivendo e aprendendo...bjus!!!

Marília disse...

Morgana querida... parabéns pela simplicidade do texto, que nos leva a refletir sobre o destino de cada um de nós. E lhe digo... felizes as pessoas que encontra o seu destino ou vocação, num mundo tão conturbado e que pode contribuir de uma certa maneira, na melhoria de transformação das pessoas que povoam o nosso planeta. Não importa a hora... a idade... o que importa é que estamos transmitindo o nosso recado.

MARAELIZA disse...

MUITA VEZES DESCOBRIMOS NOSSO DOM NA MEDIDA E IDADE CERTA, QUANDO ACHAMOS QUE JÁ ESTAMOS NOS ENCOSTANDO É QUE ENCONTRAMOS UM BRILHANTE FUTURO DE SUCESSO, É ASSIM QUE A VEJO MORGANA GAZEL, SUA SABEDORIA PARTE DE SONHOS QUE JÁ VINHAM SENDO PROJETADO EM SUA FILOSOFIA DE VIDA, E ACONTECEU, ADMIRADA COM SEU ROMANCE E COM TUDO QUE ESCREVE QUERO TE PARABENIZAR PELO QUE VOCÊ É, DIGNA DE MEU RESPEITO COMO UMA PROFISSIONAL DE TIRAR O CHAPÉU, VOCÊ PARA MIM É UM EXEMPLO DE REFLEXÃO E CARINHO AO QUAL PRETENDO SEGUIR A RISCA, SEM MEDO DE ERRAR. MEUS APLAUSOS PARA VOCÊ....ME ORGULHO DE SER SUA FÃ E AMIGA VIRTUAL...BJKIS

Miguel Martins De Menezes disse...

Tentei uma carreira na escrita aos dezoito anos, mais tarde, então com vinte e sete anos, fiz nova investida, voltei a insistir aos trinta e seis anos e todas as três tentativas foram frustradas. Faltava-me algo, sentia-me insatisfeito, algo levava-me sempre a desistir.

Aos treze anos de idade, sempre frustrado, comecei a escrever poesia, no íntimo não queria ser poeta, a poesia funcionava dentro de mim como uma alavanca para algo diferente, corrompia-me, destruía-me na sua forma e essência, queria ser romancista, mas desconhecia quando e como o conseguiria. Tinha a perfeita noção de que esse dia me bateria na porta.

Aos dezoito anos tentei de novo a poesia, mas esta violentava-me os interstícios da alma e deixava-me deprimido, rasgava-me a interioridade com uma violência que quase me exterminava. Um dia alguns colegas convidaram-me para ir a uma discoteca e como não tinha dinheiro vendi todos os poemas à saída do teatro da cidade. De modo inconsciente afastava-me, destruí páginas e páginas dactilografadas numa velha e pesada máquina de escrever "Remington".

Havia prostituído a minha alma de poeta por causa de uma noite fútil de divertimento e bebida. Senti-me um louco corrompido, apenas havia deixado em casa o meu primeiro poema, escrito aos treze anos de idade e dedicado a uma colega adolescente que nunca soube do amor platónico que lhe havia dedicado em "Volúpia da dor"

Horas mais tarde estava de regresso ao meu quarto com um sorriso etilizado. Meditava em silêncio enquanto caminhava pensando: "Não fiques triste por ter perdido os poemas, a poesia não está no papel, mas sim dentro de ti". Havia perdido cerca de duzentos e cinquenta poemas, na sua maioria oferecidos, outros pagos generosamente pelas pessoas que trespassavam as portas à saída do Teatro onde haviam assistido à peça de Samuel Beckett - "ESPERANDO GODOT" - Fiquei à saída do Teatro Gil Vicente dizendo às pessoas: " São únicos, não têm preço, se não tiverem dinheiro podem levar..."

Recordo duas moças estudantes, esvaziaram o porta moedas e obrigaram-me a aceitar o pouco dinheiro que possuíam em troco de dois poemas escolhidos entre os poucos que restaram, recusei aceitar o dinheiro, mas insistiram e acabei aceitando as velhas moedas negras de Escudo exterminadas pela vileza dos políticos corruptos que venderam Portugal à Europa. Deste modo arrecadei uma boa quantidade do vil metal esquecendo os colegas que me esperavam na discoteca. Acabei sozinho num restaurante da cidade ao lado do teatro, comendo camarão e bebendo cerveja tendo-me juntado mais tarde ao grupo de amigos com quem acabei a noite.

(CONTINUA)

Miguel Martins De Menezes disse...

A primeira tentativa de escrever um romance foi ambiciosa demais, surgiu-me aos vinte e sete anos, queria escrever um romance histórico. O tema versava uma das maiores catástrofes da história de Portugal; os ventos desfavoráveis e as correntes fortes do mar mediterrânico acabaram num dos maiores desastres militares da história de Portugal. A frota portuguesa atrasou-se, deveria ter chegado ao Norte de África ainda de noite, mas o atraso expôs os barcos à luz do dia eliminando o factor surpresa... Fiquei a meio, nunca terminei, a pesquisa tomava-me muito tempo, sobretudo recursos que na época não estavam ao meu alcance.

Era exigente demais comigo próprio, nunca conseguia escrever , até mesmo ficção, desligando os textos da realidade. Perdi dias tentando pesquisar de onde partiu a maior esquadra naval portuguesa dizimada num dos maiores ataques a Ceuta. Tudo havia corrido mal, um dos vários cronistas e historiadores em que baseei a minha pesquisa dizia: " Os navios eram tantos que o mar não se via". Havia uma enorme polémica sobre o local de embarque; recordo ter pegado num mapa tentando descortinar um dos três locais apontados pela discórdia entre historiadores. Após semanas de pesquisa, calculei qual deveria ter sido o local mais plausível para o embarque. As exigências logísticas determinadas pela dimensão da armada dificilmente poderiam ter dado início a esta incursão épica numa enseada pequena e de difícil acesso para a quantidade de homens e cavalos envolvida.

Aos trinta e seis anos tentei de novo, desta vez escrevendo pequenos contos. Queria evitar o romance por achar que este exigia uma superior maturidade na escrita. O conto poderia ajudar-me a sedimentar essa paixão, contudo, um familiar manifestou oposição feroz a esta tentativa de incursão na literatura e a impugnação dos que me rodeavam fez-me desistir. Havia-me afastado do trabalho de modo deliberado, tirara férias para escrever sobre um galo negro de crista vermelha chamado "Gipsófila". A ave era a fonte das desavenças entre um casal, tendo conduzindo o casamento à ruptura, acabado os dias transformado num belo arroz de cabidela preparado com amor dentro de uma panela fumegante que foi devorada pelos comensais numa mesa de discórdia. Emprestei o conto a um familiar e nunca mais o vi...

Finalmente percebi que havia chegada a minha hora. Numa noite gelada de inverno dei início ao romance "No voo para o Abismo", foi então que percebi que todas as minhas tentativas frustradas se resumiam a uma questão; falta de maturidade! Não havia chegado a minha hora, desde a adolescência que era sabedor de que esse dia iria surgir, apenas desconhecia quando e onde se daria o início da minha carreira como escritor.

Partilho aqui com Morgana um pouco do meu percurso na escrita: nunca é tarde para começar uma carreira na escrita, esta exige conhecimento, domínio da língua, um superior estado de consciência a que chamamos maturidade. Trata-se de um percurso longo, árduo e decepcionante, o estado de percepção que a consciência de tudo o que nos circunda nos transmite isola-nos, mas nunca é tarde, Morgana Gazel possui todos os ingredientes que fazem dela uma excelente escritora!

Um abraço e desejos de muito sucesso no seu próximo romance "Liberdade Negada".

Miguel Martins de Menezes

Eliane Accioly disse...

Impressionante seu relato, acredito piamente nele. Isabel Allende conta histórias de como escreve, como "é chamada" pelos personagens. Gosto muito de escutar você, Morgana.