
Segundo James Hillman, psicólogo junguiano, assim como uma semente de carvalho está fadada a se tornar uma árvore, trazemos um destino ou uma vocação que devemos desenvolver. Costumo chamar essa vocação de “o desejo mais intenso que acalentamos no recôndito de nossas almas” e acrescento: Se a semente cair num terreno árido, pode não chegar à plenitude do seu destino, quiçá jamais alcançá-lo. Corremos o mesmo risco e talvez nem sequer consigamos reconhecer esse desejo mais exigente, caso sejamos submetidos a uma educação ou condições sociais alienantes. No entanto, apenas quando buscamos realizá-lo, vislumbramos o real significado da vida e os demais desejos ficam num plano secundário.
A descoberta do destino pode ocorrer com qualquer um, o mais difícil talvez seja arriscar-se a segui-lo. Vislumbrei-o aos cinquenta e oito anos: escrever histórias fictícias que tratem de dramas humanos reais. Sabia que não seria fácil, com esta idade, a maioria pensa em se aposentar! Apesar disso, decidi arriscar.
Como jamais havia escrito ficção, minha experiência era com textos acadêmicos, fiquei aguardando o que chamei “inspiração divina”. Não tinha muita esperança em ser atendida, pois minha relação com Deus sempre foi meio problemática; nunca o aceitei como dizem que Ele é. Por isso recorri ao Deus que eu própria inventei, naturalmente à minha semelhança, em vez de recorrer Àquele inventado pelos pregadores religiosos, à semelhança deles. Enquanto aguardava a dita inspiração, lia romances com olhos de aprendiz, comprei uma nova gramática, um livro sobre comunicação, novo dicionário, tomei um curso relâmpago de escrita literária, comecei a descrever ambientes e esbocei um conto.
Dois meses passaram-se e nada aconteceu até que um dia, ao me dirigir a um restaurante, de lá iria para meu consultório, minha mente foi invadida por um pensamento que se repetia sem parar: “Volte para casa”. Não poderia voltar, tinha um compromisso de trabalho. Mas, no restaurante, o pensamento insistiu tanto que resolvi barganhar: “Tudo bem, volto se todos os clientes estiverem tranquilos.” Telefonei. Para minha surpresa, nenhum deles fazia questão de minha companhia naquela tarde. Voltei. Ao chegar a casa, senti um sono tão danado que me joguei na cama sem trocar de roupa. Acordei à noite com o enredo de uma história, o perfil psicológico dos personagens principais, seus nomes e os títulos dos capítulos iniciais.
Assim comecei a gestar o primeiro romance e tenho colhido flores e espinhos ao longo dessa caminhada. Agora estou convencida de que este é meu destino. Espero que logo encontre o seu, se isso ainda não aconteceu.
Morgana Gazel
Autora do livro Enseada do Segredo
Nota 1: Esta é uma versão do
artigo "Um destino: A floresta literária", adaptada para o jornal.
Nota 2: Agora, 2013, a 3ª edição do romance ENSEADA DO SEGREDO e a 1ª edição do LIBERDADE NEGADA, ambos de minha autoria, estão sendo publicadas pela COGITO EDITORA.