9 de agosto de 2013

O escritor, seu papel e desejo


(Artigo publicado no jornal A Tarde, em 31/08/2013, caderno Classificados)

Prefiro começar pelo desejo, questão mais complexa, com frequência, irreconhecível até por quem o sente.
Alguns escritores dizem que, ao escrever, desejam apenas se expressar. Para que então publicar? Por que não guardar numa gaveta o fruto dessa expressão? Seria compreensível que o mostrassem aos amigos, como é comum pessoas fazerem quando adquirem ou produzem algo que consideram importante.
A discrepância, entre o que o sujeito diz e faz, denuncia que ele não sabe ou teme declarar o que se passa consigo. Plagiando a frase de Shakespeare, “Há mais coisas entre o Céu e a Terra do que supõe nossa vã filosofia”, ouso afirmar: Há mais coisas entre os sentimentos e sua não percepção ou não aceitação, do que supõe nossa vã filosofia. Neste caso, costumamos chamar as tais coisas de defesas inconscientes, das quais também dificilmente nos damos conta.
Quem quiser descobrir o que o leva a escrever precisa perscrutar-se cuidadosa e corajosamente. Talvez se depare com mais respostas além da corriqueira: expressar-se. Exemplo de algumas delas: entreter ou entreter-se de modo a aliviar as tensões cotidianas; ser compreendido, mostrando o que sente e pensa; ser admirado; ficar rico e famoso; ser reconhecido pela classe social mais intelectualizada; informar o que imagina que a maioria dos leitores desconhece; contribuir para a ampliação da consciência subjetiva e social; etc.
Quanto ao papel, observando os significados desta palavra no Aurélio, “atribuição de natureza moral, técnica, etc.” e “desempenho”, podemos pensar que se refere à forma que o escritor escreve e à sua ética. Ele tem um estilo próprio? Seus escritos são originais ou quase uma cópia de alguma obra atual bem-sucedida ou antiga e de domínio público? Notifica quando seu texto é baseado em outro ou numa situação real? Se seu produto é uma história, o narrador é honesto com o leitor?
O desejo, considerando-se o que foi dito acima, às vezes nem quem o sente consegue identificar, porém estas e outras perguntas podem ser involuntariamente elaboradas por qualquer leitor atento e com algum conhecimento literário, de modo que lhe salta aos olhos se o escritor cumpre ou não adequadamente seu papel.
Parabéns ao escritor que ao ler este artigo não se reconhece em nenhum dos aspectos, digamos, tidos pelo bom senso como negativos.


Morgana Gazel
Escritora e psicóloga
Autora de romances, poemas e contos.

3 comentários:

João de Sousa Teixeira disse...

Não conheço, por culpa minha, claro, nenhuma obra literária da Morgana Gazel. Mas tal não é necessário para reconhecer neste texto a psicóloga e não a escritora. Com efeito, “os escritores” dizem mil e uma coisas para “justificarem” o seu acto. A maior parte das vezes para chamarem as atenções sobre si, algumas vezes por uma questão de charme, quase nunca por ser verdade. O Escritor (sendo poeta- que é o meu caso-) tem um coração que vê e transporta com mil cuidados para o entregar a quem dele quiser cuidar. Porém, a Morgana Gazel saberá tão bem ou melhor que eu, que o mundo da literatura é uma feira de vaidades, padrinhos incluídos, circunstâncias exógenas (Gasset dizia que nós somos nós e as nossas circunstâncias) que levam o Escritor; o romancista, o poeta, a expressar-se duma forma nem sempre verdadeira, mas com certeza tendo em conta o meio onde se movimenta.
Um abraço português (incluindo a gramática…)

Morgana Gazel disse...

Muito bom e pertinente seu comentário, João de Sousa Teixeira. Você está certo, agimos e nos expressamos influenciados pelo meio em que vivemos. Escrevi este artigo não para condenar, mas para chamar a atenção sobre este tema, porque muitos dos nossos colegas escritores, além de não se darem conta desta influência, não avaliam o que dizem ou fazem.

guerreira xue disse...

Ola Morgana querida!
Muito pertinente sua colocação e me faz pensar, o que nos move ao escrever. E cada caso é um caso. Vejo muitos escritores nas redes sociais com tanto talento que chego a estranhar, não terem suas publicações estampadas nas livrarias da vida. Eu escrevia desde menina. Depois quando retomei isso, tem coisa de cinco anos, eu pensava mesmo que era só para desabafo, mas a coisa vai evoluindo, mostrei a amigos, e faziamos encontros de poesia onde liamos nossos autores preferidos e aseguir liamos nosso trabalho e depois vieram os blogs de contos partilhados e individuais...
Quando percebemos que outros, fora de nosso circulo, nos liam foi fantástico e quando comentávam então! Penso que independente de retorno financeiro, e mesmo que escrever se torne profissão, o escritor é alguém que propoe um "olhar" que quando aceito dá imensa satisfação. Quanto a "verdades e mentiras", é tudo muito subjetivo, pois no meu caso, sou uma contista. Risos...
Um escritor pode escrever por dinheiro ou por vaidade, não importa. Desde que escreva, seja lido, e seja criticado. O que não pode é ser ignorado.
Beijo grande escritora!! :-)