
Mas, se a semente cair num terreno árido, pode não chegar à plenitude do seu destino, quiçá jamais alcançá-lo. Corremos o mesmo risco e talvez nem sequer consigamos reconhecer nosso desejo maior e mais exigente, caso sejamos submetidos a uma educação ou condições sociais alienantes. No entanto, apenas quando buscamos realizá-lo, vislumbramos o real significado da vida e os demais desejos ficam num plano secundário.
Esse fenômeno ocorre comigo desde que me conscientizei de que meu destino ou desejo mais ardente é escrever histórias fictícias que tratem de dramas humanos reais.
A partir de então, adentrei na floresta literária, procurando desvendar seus mistérios e sua arte. Não quero dar a impressão de que esta viagem seja como um passeio a Disney. Pelo contrário, é importante mostrar que temos de enfrentar muitos obstáculos, creio que necessários à aprendizagem. No meu caso, inicialmente fiquei a esperar uma “inspiração divina”, pois jamais escrevera ficção, minha experiência era com textos acadêmicos. No entanto não tinha muita esperança em ser atendida porque minha relação com Deus sempre foi meio problemática; não o aceito como dizem que Ele é. Por isso recorri ao Deus que eu própria inventei, naturalmente à minha semelhança, em vez de recorrer Àquele inventado pelos pregadores religiosos, à semelhança deles. Santo Deus, o meu, já me afastei do que me incitou a escrever esta nota! Voltando ao que comecei a contar, enquanto esperava a dita inspiração, lia romances com olhos de aprendiz, comprei uma nova gramática, um livro sobre comunicação, novo dicionário, tomei um curso relâmpago de escrita literária, comecei a descrever ambientes e esbocei um conto.
Dois meses passaram e nada aconteceu até que um dia, ao me dirigir a um restaurante, de lá iria para meu consultório, minha mente foi invadida por um pensamento que se repetia sem parar: “Volte para casa”. Claro que não voltei, isto é, não voltei de imediato, pois sou uma pessoa responsável! No restaurante, o pensamento insistiu tanto que resolvi barganhar: “Tudo bem, volto se todos os clientes estiverem absolutamente tranquilos.” Telefonei e, para minha surpresa, nenhum deles fazia questão de minha companhia naquela tarde. Voltei. Ao chegar a casa, senti um sono tão danado que me joguei na cama sem trocar de roupa. Acordei à noite com o enredo de uma história, o perfil psicológico dos personagens principais, seus nomes e os títulos dos capítulos iniciais.
Assim nasceu meu primeiro romance, o Enseada do Segredo. O segundo, preste a ser enviado a quem tem o destino de publicar, e o terceiro, ainda um monte de rabiscos em pedaços papel guardados, vieram a mim de forma menos inusitada. Quanto mais me embrenho na floresta literária, torna-se mais difícil sair. Acabei de organizar um livro de poesias com as flores e os espinhos colhidos ao longo dessa caminhada. Logo, estou convencida de que Hillman tem razão.
Morgana Gazel