6 de junho de 2015

Apresentação do livro CRIAÇÃO



Este é mais um livro de Morgana Gazel. Desta vez trata-se de poesias. Como se quisesse deixar evidente este gênero, ela publica na contracapa o poema Mundo e, logo no início, apresenta a própria biografia em forma de poema. As demais  poesias são distribuídas em seções que contam a história da criação divina do universo com tudo que nele há, até a destruição do planeta dos homens. Este trágico percurso da civilização humana inicia-se com o uso da palavra e se finaliza com o apocalipse. 

No texto de dedicatória e agradecimento a Deus, a quem denomina Criador, transparece sua visão da realidade e fé inexplicável, quando diz:

 “Mesmo que a ciência conclua que a criação do mundo se deu de modo espontâneo, não abdicarei da fé que sussurra em minha mente ter sido este evento obra de um Criador. Mas há um corolário, decorrente da infinitude do universo, impossível de ser ignorado: a Terra não passa de uma partícula microscópica neste espaço sideral em que vivemos. Portanto diante de tal situação somos quase nada”.

E no final desse texto afirma: “A certeza é da mente, a fé é do coração”.

11 de dezembro de 2013

LIBERDADE NEGADA - Resenha publicada no jornal A Tarde, Salvador, em 10/12/2013.


Por PATRICIA LINS

História, drama, romance, família, ditadura militar, violência, morte, perdas, mudanças, inquietação, questionamentos, reflexões, emoções, sentimentos, dúvidas, injustiça... Todos estes elementos, e muito mais, compõem o segundo romance da escritora, poeta e psicóloga Morgana Gazel – pseudônimo literário de Noemia Nocera.
Seu estilo literário leva-nos a ter vontade de ler e ler e ler até o fim, por sinal, bastante incomum. Como fez em seu primeiro romance “Enseada do Segredo”, Morgana Gazel nos conduz, no “Liberdade Negada”, num ritmo dinâmico a um ápice inesperado e a um final que nos deixa boquiabertos, tamanha a capacidade da escritora em surpreender.
A obra retrata a história de Sara. Aos 11 anos de idade, ela vive feliz com sua família, quando estoura o golpe militar de 1964. Aos 17 anos, envolve-se com um militante da esquerda e comete um erro imperdoável aos olhos dos guardiões do regime, entre eles o seu pai, tenente-coronel do exército. Após alguns dias, percebe que, na escola, está sendo seguida por pessoas misteriosas. Às escondidas, a mãe e os tios enviam-na para outro país. Este livro de forte conteúdo psicológico, histórico e cultural, é o segundo de uma trilogia que teve início com Enseada do Segredo (2008) e que se completará com A Carta da Mãe, novo romance já iniciado.
Em suas histórias inventadas, Morgana Gazel consegue traduzir em palavras os dramas humanos reais. Assim como “Enseada do Segredo”, romance mais leve, ainda que com conteúdo profundo, o “Liberdade Negada” (Cogito Editora) é ambientado na época da ditadura militar. Neste, porém, ela penetra mais intensamente naquele período. E nos conduz numa viagem no tempo sem que percebamos que estamos saindo daqui, do presente. É tudo tão real e “cotidiânico” - sentimos como se estivéssemos vendo acontecer em real time - que impressiona. Impressionar, surpreender..., estes adjetivos não são fortes o suficiente para qualificar o trabalho dessa autora.
A obra tem o prefácio do escritor e doutor em literatura Carlos Ribeiro, que compara o livro com um dos mais interessantes filmes contemporâneos, A vida secreta das palavras (2005),  da diretora espanhola Isabel Coixet. Ribeiro destaca que “pelo traçado da obra, pode-se acreditar que Morgana Gazel, percebe a palavra e o ato de narrar como instrumento para a cura emocional e espiritual”.


PATRICIA LINS / PUBLICITÁRIA, RELAÇÕES PÚBLICAS, RADIALISTA, BLOGUEIRA, PROFESSORA E POETA.



7 de novembro de 2013

Book Trailer do Livro Liberdade Negada

Através de sons, imagens e palavras, você terá uma fantástica visão da história de Sara, a protagonista do romance Liberdade Negada, de Morgana Gazel.




17 de outubro de 2013

LIBERDADE NEGADA

Prefácio de Carlos Ribeiro
Jornalista, professor, ficcionista,
Ensaísta e doutor em literatura brasileira.
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Liberdade Negada
Neste segundo volume da trilogia iniciada com o romance Enseada do Segredo, Morgana Gazel afirma um fazer literário cuja principal característica é a de comunicar uma experiência humana intensa e rica, numa linguagem sóbria, acessível e despojada de artificialismos. Para a autora, a literatura deve atingir o maior número possível de leitores, razão pela qual é preciso conciliar simplicidade e profundidade, o que nem sempre é muito fácil. Tocar a sensibilidade do leitor que aprecia uma boa trama amorosa, por exemplo, pode ser o viés adequado, como no presente livro, para realizar, no decorrer da história, um objetivo mais ambicioso: o de proceder à escavação, gradual e às vezes perturbadora, dos conflitos e traumas de seus personagens.
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Carlos Ribeiro
Em Liberdade negada, o que se apresenta, inicialmente, como uma estratégia afetiva entre os protagonistas, Fred e Sara, desdobra-se em camadas nas quais se encontram significados cada vez mais complexos: da dimensão individual da misteriosa personagem feminina aflora uma dimensão política que estende suas raízes para os obscuros “anos de chumbo” da ditadura militar implantada no Brasil, em 1964. Procede, assim, a autora, a uma análise que ultrapassa a dimensão psicológica, pessoal, para radiografar as nefastas consequências advindas da intolerância ideológica – inclusive, e sobretudo, no âmbito doméstico, no espaço íntimo dos afetos familiares.
Nesse sentido, este livro é também um “romance de formação”, construído retrospectivamente através do depoimento – pungente e doloroso – de Sara ao seu amoroso interlocutor. Ao narrar a dramática travessia que realiza, desde o paraíso perdido da infância e adolescência, até o despertar de sua consciência social e política na relação com o pai, tenente-coronel do Exército, com a prima Maria Augusta e com o ativista político de esquerda, Flávio, seu primeiro namorado, Sara realiza sua odisseia pessoal em busca da compreensão e, consequentemente, da cura para a dor profunda que lhe foi infligida por sucessivas perdas e humilhações.
Morgana Gazel
Morgana/Noemia
Pelo traçado de sua obra, pode-se acreditar que Morgana Gazel (pseudônimo da psicóloga e matemática Noemia Meireles) percebe a palavra e o ato de narrar como instrumento para a cura emocional e espiritual. Nessa perspectiva, este livro guarda um interessante parentesco com um dos mais interessantes filmes contemporâneos, A vida secreta das palavras (2005), da diretora espanhola Isabel Coixet. Em ambos os casos, as duas protagonistas femininas (a enfermeira Hanna, personagem do filme, interpretada por Sarah Polley, e a professora Sara) conseguem, não com pouca resistência e sofrimento, desmontar suas armadilhas e armaduras internas graças a uma escuta amorosa, feita de avanços e recuos, num tecido narrativo construído com extrema delicadeza.
A Vida Secreta  Das Palavras
A vida secreta das palavras
Morgana/Noemia, em sua dupla face de escritora/psicóloga, sabe evitar as soluções fáceis e as classificações simplistas. O aspecto “curativo” da narrativa não descarta os desencontros e as impossibilidades; a composição do drama não cede às caricaturas dos vilões e mocinhos. A verdadeira tragédia aqui exposta é a da incomunicabilidade humana, construída e alimentada pela intolerância e pela dificuldade, quando não incapacidade de se entender o outro, esse indecifrável enigma.

21 de setembro de 2013

LIBERDADE NEGADA - Sinopse

Sara, onze anos, filha de um tenente-coronel do exército, vive feliz com sua família. Desconhece qualquer conceito de política, quando estoura o golpe militar de 1964.
Mas, através de uma prima mais velha da qual é muito amiga e de colegas que frequentam o diretório da escola, apreende informações acerca de política, filosofia e do que ocorre no país, de modo que passa ter uma ideia pessoal da realidade de então.
Aos dezessete anos, envolve-se com um militante da esquerda e comete um erro imperdoável aos olhos dos guardiões do regime, entre eles o seu pai, tenente-coronel do exército. Após alguns dias, percebe que, na escola, está sendo seguida por pessoas misteriosas. Às escondidas, a mãe e os tios enviam-na para outro país. Transcorrem quatro anos e meio.
Sara volta ao Brasil, conhece Fred, pai de um garoto de quem se torna professora. Começam a sair juntos. Numa ocasião, enquanto os dois conversam num bar, ela entra em crise de choro ao ouvir, pelo rádio, que um homem foi morto na prisão de um órgão da segurança militar. Fred hospeda-a em seu apartamento e a incentiva a contar o que a aflige de forma tão desesperadora. Sara relata uma longa história em que se misturam cenas do cotidiano, um grande amor, conflitos familiares, violência e morte.


NOTAS:
1. Leia este livro e o 'Enseada do Segredo' para saber detalhes e pontos fortes de ambas as historias que fazem parte de uma trilogia.

16 de setembro de 2013

Educar é, antes de tudo, conscientizar



Isto significa que conscientizar se insere em todo o processo educativo. Vejamos. Proponho que educar é envidar ações que levem o educando a tomar conhecimento e fazer uso das condutas necessárias a seu desenvolvimento físico; a reconhecer seus padrões construtivos e destrutivos e a lidar com eles de modo adequado; a distinguir seu papel nas relações interpessoais; a se tornar ciente de seus direitos e deveres no âmbito social; a perceber que o aprendizado intelectual é um instrumento imprescindível à aquisição da liberdade de pensar e da capacidade de fazer escolhas adequadas; por último, a se dedicar a este aprendizado.
Esta concepção de educar é apenas um detalhamento baseado numa definição do Aurélio, que diz: Educação é o processo de desenvolvimento da capacidade física, intelectual e moral da criança e do ser humano em geral, visando à sua melhor integração individual e social.
Se atentarmos cuidadosamente no que proponho como objetivos das ações educativas, veremos que a família tem um papel preponderante na consecução deles. Somente os dois últimos exigem a participação da escola, embora ela deva contribuir para que os demais sejam igualmente alcançados.
Ora, os pais, em sua maioria, não têm condições de cumprir todos os requisitos referentes a seu papel de educadores, pois não foram suficientemente educados. Se o filho bate em outra criança, eles se mostram compreensivos, caso contrário ficam furiosos. À noite, horário em que geralmente os membros da família têm oportunidade de interagir, uns se ocupam assistindo à TV, outros no computador. E assim segue a vida.
Se a criança chega à escola com pouca ou nenhuma educação doméstica, terá grande dificuldade de se adaptar ao novo ambiente, principalmente porque grande parte dos professores não está preparada para lidar com aluno difícil. É bom lembrar que os docentes podem também ter tido uma família incapaz de exercer satisfatoriamente o dever de educar. A coisa toda se complica ainda mais, quando um deles toma uma medida, às vezes correta, com a finalidade de corrigir uma conduta deseducada, e os pais do aluno em questão revoltam-se e o agridem. O prejuízo do professor será apenas o mal-estar, o do aluno será provavelmente jamais se tornar um verdadeiro cidadão.
Os efeitos das falhas no processo educativo alastram-se em toda a sociedade, vão até nossos governantes; muitos deles certamente vieram de lares e escolas que falharam neste aspecto. Como consequência, chafurdam no exercício da não cidadania e, portanto, não têm nenhum interesse em mudar tal situação.
Que fazer então diante desta realidade? Você deve estar perguntando-se, caso tenha tido a sorte de ser educado adequadamente. Difícil responder. Mas tenho sido assaltada por um sonho louco, no qual todos os verdadeiros cidadãos contribuem de alguma forma para educar pelo menos uma pessoa fora de sua família. No futuro deste sonho, nossos bisnetos são os pais, e o mundo é um lugar bem melhor de se viver.

MORGANA GAZEL,  autora de romances, poemas e contos.

NOTA: Artigo publicado no jornal A Tarde. Salvador – Quinta-feira, 19/7/2012. Imobiliário, página 6.



27 de agosto de 2013

ENSEADA DO SEGREDO – Sinopse


Fred reside com a mãe num subúrbio à margem de uma aprazível enseada. Tem dois amigos sinceros, conquista a garota sonhada, participa de jogos de futebol e vence um importante torneio de natação.

No entanto tem sonhos incompreensíveis e é invadido por devaneios que o deixam infeliz e ressentido. Isso parece indicar que há algo errado em sua vida! Ele pouco sabe do pai, de quem ficou órfão antes de nascer, o que conseguiu arrancar da mãe não o satisfaz. Também desconhece o que acontece no país por trás da aparente normalidade, somente ouve comentários acerca de desaparecimento de pessoas, os jornais nada noticiam.

Numa noite insone, resolve ir à cozinha tomar um copo de leite. Ao passar em frente do quarto da mãe, paralisa-se: ela chora e fala com alguém pelo telefone. Ao escutar uma frase clara e desesperada, sente-se atravessando um túnel que o leva de um mundo ilusório para um real de extrema crueldade, onde terá de enfrentar uma verdade inimaginável. Incapaz de suportar tal situação, abandona os amigos, a namorada, a enseada e vai embora para outro país.

Quando enfim se acostuma à condição de estrangeiro solitário, encontra uma carta sobre o tapete à entrada do seu quarto. Apalpa-a, sacode, com as mãos trêmulas, parece temer as notícias que ela lhe traz. E, de fato, a leitura deixa-o transtornado.

O que faria agora? Naquele instante, Fred não conseguia responder.


Morgana Gazel - autora 

9 de agosto de 2013

O escritor, seu papel e desejo


(Artigo publicado no jornal A Tarde, em 31/08/2013, caderno Classificados)

Prefiro começar pelo desejo, questão mais complexa, com frequência, irreconhecível até por quem o sente.
Alguns escritores dizem que, ao escrever, desejam apenas se expressar. Para que então publicar? Por que não guardar numa gaveta o fruto dessa expressão? Seria compreensível que o mostrassem aos amigos, como é comum pessoas fazerem quando adquirem ou produzem algo que consideram importante.
A discrepância, entre o que o sujeito diz e faz, denuncia que ele não sabe ou teme declarar o que se passa consigo. Plagiando a frase de Shakespeare, “Há mais coisas entre o Céu e a Terra do que supõe nossa vã filosofia”, ouso afirmar: Há mais coisas entre os sentimentos e sua não percepção ou não aceitação, do que supõe nossa vã filosofia. Neste caso, costumamos chamar as tais coisas de defesas inconscientes, das quais também dificilmente nos damos conta.
Quem quiser descobrir o que o leva a escrever precisa perscrutar-se cuidadosa e corajosamente. Talvez se depare com mais respostas além da corriqueira: expressar-se. Exemplo de algumas delas: entreter ou entreter-se de modo a aliviar as tensões cotidianas; ser compreendido, mostrando o que sente e pensa; ser admirado; ficar rico e famoso; ser reconhecido pela classe social mais intelectualizada; informar o que imagina que a maioria dos leitores desconhece; contribuir para a ampliação da consciência subjetiva e social; etc.
Quanto ao papel, observando os significados desta palavra no Aurélio, “atribuição de natureza moral, técnica, etc.” e “desempenho”, podemos pensar que se refere à forma que o escritor escreve e à sua ética. Ele tem um estilo próprio? Seus escritos são originais ou quase uma cópia de alguma obra atual bem-sucedida ou antiga e de domínio público? Notifica quando seu texto é baseado em outro ou numa situação real? Se seu produto é uma história, o narrador é honesto com o leitor?
O desejo, considerando-se o que foi dito acima, às vezes nem quem o sente consegue identificar, porém estas e outras perguntas podem ser involuntariamente elaboradas por qualquer leitor atento e com algum conhecimento literário, de modo que lhe salta aos olhos se o escritor cumpre ou não adequadamente seu papel.
Parabéns ao escritor que ao ler este artigo não se reconhece em nenhum dos aspectos, digamos, tidos pelo bom senso como negativos.


Morgana Gazel
Escritora e psicóloga
Autora de romances, poemas e contos.

1 de agosto de 2013

Poema contemplado no concurso de poesia CEPA-62 ANOS (5º lugar).












Aletologia

No embate entre você e eu
me refiz me transformei.
A palavra era de prata,
apenas no Ateneu.
Percebi, despertei.

O verbo se tornou carne
passageira como a brisa.
O som, no espaço, é imune.
O saber, no silêncio, se eterniza.
 
Morgana Gazel

22 de julho de 2013

Vale Cultura: Pra valer?

Artigo de Rogéria Gomes
          
         A cultura está na predileção do povo, mas não na mesma proporção na esfera das políticas publicas.  Qualquer ação no sentido de valorá-la, é sempre muito bem-vinda. O Brasil é incontestavelmente um país com talentos incríveis e produções das mais diversas competências sem, contudo, chegar a todos.
         Vez por outra boas novas acontecem como é o caso do vale cultura, a ser implantado como noticiado, no segundo semestre. O valor ainda é modesto, R$50,00/mês, mas vai beneficiar grande parcela da população, em torno de um milhão de trabalhadores formais, que poderão investir este valor em um amplo leque de atividades culturais. Sendo possível assim, ir ao teatro um mês, adquirir livros em outro, ir cinema, visitar exposições, e daí por diante.
Muito tem sido discutido sobre o que pode ou deve ser incluído neste pacote, de todo jeito seja como for vai colaborar, é fato. O vale cultura chega mais que na hora, com a intenção de corrigir esta lamentável desigualdade, no entanto vale aqui um pequeno parêntese sobre alguns pontos. O primeiro deles, seja talvez o mais preocupante, diz respeito aos equipamentos culturais tão deficientes em muitos lugares e, em outros tantos, inexistente, especialmente nas periferias das grandes cidades e nos pequenos municípios, em particular no Norte e Nordeste do país. Pesquisas apontam que em torno de 90% dos municípios não tem salas de projeção e mais de 70% não possuem teatros ou salas de espetáculos. Este é o lado ruim da história. De que adianta dar peixe sem o anzol para novas conquistas? Por outro lado esta medida pode impulsionar e estimular a criação, adequação e recuperação de espaços capazes de atender ao mercado cultural.
       Público com certeza não faltará, os brasileiros dão prova constante de seu interesse e presença em ambientes culturais; não raro, podemos encontrar filas imensas ao redor dos teatros, mostras de artes plásticas, nos cinemas, enfim, aparecendo a chance o povo está lá, comparece. Quer substancia e conteúdo, não só luxo.
        Enfim, um país que toma fôlego em tantas áreas, fica a ávida torcida para que a cultura inicie um caminho próspero e sem volta, ao alcance de todos e venha ser consumida como prato principal de uma nação tão diversa e brilhante artisticamente.  Lúcido pensar e acreditar nas palavras do poeta espanhol Antônio Machado, ”caminhante não há caminho. Faz-se caminho ao andar”. Caminhemos.

Rogéria Gomes
Jornalista e escritora
www.infoconews.com.br / Coluna Revista Cultural
Membro Associação Internacional Poetas Del Mundo
Dica : " As Grandes Damas E Um Perfil do Teatro Brasileiro" - Ed. Tinta Negra

Leia e comente!

20 de maio de 2013

MORGANA GAZEL conta:



O que acontecerá entre Fred, o protagonista do romance "Enseada do Segredo" e Sara? A resposta é quase impossível de se imaginar. Mas veja um pequeno esboço da história "Liberdade Negada", em que eles se encontram:
Durante a ditadura militar no Brasil, Sara, filha de um tenente-coronel do exército, envolve-se com um ativista da esquerda e é flagrada distribuindo panfletos que esclarecem o povo acerca do regime. Em consequência deste ato, é obrigada a fugir para outro país, onde recebe uma notícia tão terrível que, mesmo não sendo mais necessário, permanece no exílio durante quatro anos e meio. 
Mas a necessidade de esclarecer algumas questões íntimas obriga-a a retornar à sua terra. Então conhece Fred, pai de um garoto do qual, neste ínterim, ela se torna professora. Numa ocasião, enquanto os dois conversam num bar, entra em crise de pânico ao ouvir pelo rádio uma notícia sobre a morte de um homem na prisão. 
Fred acolhe-a de modo que Sara consegue contar o que lhe havia acontecido. Neste relato, misturam-se amor, estratégias perigosas para manter escondido um namoro impossível, conflitos familiares, violência, fuga e morte. 


NOTAS:
1. Leia o "Enseada do Segredo" e o "Liberdade Negada" para saber detalhes e pontos fortes de ambas as historias que fazem parte de uma trilogia.



6 de maio de 2013

Televisão a favor da cidadania



ROGÉRIA GOMES


Que a televisão trata com prioridade o entretenimento não há dúvida, basta uma rápida zapeada para constatar independente do canal, se aberto ou não, mesmo sendo a informação pré-requisito oficial para o funcionamento da TV. O horário e público alvo também não influem, dar ibope é o que importa.

As telenovelas geralmente procuram tratar de temas de interesse social, às vezes como mero pano de fundo, mas há exemplos que acertam o alvo abrindo espaço para a discussão, reflexão e renovando o olhar sobre algum assunto conhecido e não comentado abertamente. No caso da novela ‘Salve Jorge’ exibida pela rede Globo o assunto principal é um dos crimes mais cruéis: o tráfico de pessoas para exploração sexual. Um crime perverso e considerado invisível, já que as denúncias efetivas são muito inferiores à realidade.

Apesar das ações do governo o quantitativo de mulheres traficadas é absurdamente alto e o resultado no combate a este crime ainda é muito tímido.

No Brasil a estatística é assustadora: entre 2005 e 2011, 337 mulheres foram vitimadas para exploração sexual, levadas para Espanha, Holanda e Suriname, países de preferência das quadrilhas, conforme dados publicados no Jornal 'O Globo'. O apelo comum é um ótimo e sedutor negócio, emprego rápido e fartura financeira em curto prazo, o que atrai preferencialmente pessoas cujo perfil é a baixa escolaridade e que vivem em dificuldades financeiras e estruturais. Descoberta a real atividade para qual foram ‘convidadas’ ficam as vítimas de pés e mãos atados e para reverter à situação é preciso quase um milagre. Esta novela, portanto, independente de juízo de valor, presta-nos um excelente serviço mostrando de forma clara o agir das quadrilhas que operam no tráfico humano e as atuações extremamente danosas às vitimas e suas famílias. O quadro é lamentável e muito triste, mas a boa notícia é o recente pacote apresentado pelo Governo Federal com 115 metas contra o tráfico internacional de pessoas, que reúne entre outras medidas a punição mais severa as pessoas envolvidas neste tipo de crime além da presença mais atuante das Forças Armadas nas fronteiras. Medidas possivelmente aceleradas em razão do que nos mostra a novela, não importa, a questão é urgente e ações mais rigorosas devem ser prioridade.

Sem dúvida a mídia pode e deve colaborar de toda forma possível, esse é o seu papel, especialmente quanto à comunicação de massa por seu alcance incalculável, fortalecendo uma corrente salutar ao país.

Não há bem mais valioso que a informação, com ela podemos mudar o rumo da história, por isso uma vez cônscios devemos denunciar sem medo, auxiliando a combater esta terrível estatística.

Neste caso a televisão apresenta um belo exemplo a ser seguido por outras mídias igualmente importantes nos ajudando a vislumbrar um Brasil de fato e de direito para todos, além do slogan que tão bem conhecemos.

ROGÉRIA GOMES / JORNALISTA E ESCRITORA

Artigo publicado no jornal A Tarde. Salvador, quarta-feira, 10.4.2013. Populares, página 11

29 de março de 2013

Escritor, o guardião do idioma


Além de contar uma boa história, seja triste ou hilária, sua trama cheia de mistério ou evidente, tenha ou não conteúdo histórico, cultural, etc., o escritor tem, entre outras, uma importante responsabilidade: cuidar do idioma.

Revendo alguns dos livros que li – D. Casmurro, de Machado de Assis, Memórias do Cárcere, de Graciliano Ramos, Grande Sertão: Veredas, de João Guimarães Rosa e Laços de Família, de Clarice Lispector –, constatei, agora com o olhar de escritora, o cuidado que estes autores dispensavam à ortografia, à sintaxe e à dimensão conceitual da escrita. 

No entanto, em algumas obras atuais, observa-se uma espécie de relaxamento dos autores no que se refere a estes aspectos. Por exemplo: inserem vírgulas à vontade e em lugares inconvenientes; fazem uso de relações inadequadas entre orações principais e suas complementares; introduzem pleonasmos, cacofonias e redundâncias sem qualquer objetivo literário. Àqueles de olhar mais apurado, muitos desses erros soam como pedradas. 

Alguns escritores consideram que sua função se restringe a escrever. Mas isso implica em esperar do revisor, se contratado, uma tarefa às vezes impossível: fazer a correção sem alterar a ideia intencionada, a despeito dos erros, mesmo que estes dificultem a compreensão dos trechos nos quais se encontram. É importante lembrar que todo autor tem pelo menos o objetivo de manifestar suas ideias de acordo com o que apreende da realidade tangível ou intangível. Se ele entregar a um revisor um texto cuja clareza foi prejudicada devido à má qualidade da escrita, corre o risco de publicar o avesso do que pretendia. 

Estes, porém, são os menores dos prejuízos, o maior é oferecer uma leitura que ajudará no empobrecimento do idioma, consequentemente no empobrecimento da capacidade de o leitor pensar e expressar seus pensamentos e sentimentos. Ora, quem não se expressa não dialoga com o mundo, quem não pensa não consegue fazer juízo de valores. Então como tais pessoas conseguirão compreender o que são direitos e deveres? E, se não lograrem um mínimo desta compreensão, o que ocorrerá com a sociedade em que vivem? No que concerne a isto há muito a conjeturar, mas considerando apenas o que foi analisado podemos concluir: o empobrecimento do idioma contribui para dificultar a aquisição de valores necessários à condição de cidadania. 

Portanto nós, escritores, temos somente duas opções: ou desenvolvemos a habilidade no uso da linguagem, de modo a assumirmos, como nos for possível, o papel de guardiões do nosso idioma; ou desprezamos esta habilidade, mas sabendo que estaremos atuando como agentes de destruição deste idioma e que seremos os responsáveis pelas consequências disso. 


Morgana Gazel, autora de romances, poemas e contos.

22 de fevereiro de 2013

EM NOME DE DEUS

Artigo de Rogéria Gomes, publicado no jornal A Tarde, em 07/02/2013. Vejam o que ela diz:


Desde que o homem deu conta de si, a vaidade e a ganância estão entre as predileções humanas, invadindo a passos galopantes o mundo dito civilizado.  Basta dar uma olhadinha na História. É assim mundo afora e em nosso quintal, na terra brazilis que tudo frutifica a coisa não é diferente e no campo chamado religioso frutifica a cem por um.
Em nome de Deus mata-se, corrompe-se, frauda-se, engana-se, faz-se o que se bem entende do jeito mais conveniente a quem o faz.
É bem verdade que só há o enganador por permissão ou tolerância do enganado, no entanto o que se vê é uma realidade deprimente, sofrível, assustadora e muito longe da verdade creditada ao autor.   Não só é lamentável como escandalizador assistir homens que se dizem ‘pastores’ acumularem verdadeiras fortunas além de benefícios incompatíveis ao oficio que dizem exercer. É o que temos visto com pesar e muita freqüência, em publicações e noticiários diversos e recentes.  Qualquer sacerdócio por essência deve ser exercido por pessoas cuja conduta seja digna do mesmo, sendo exemplo em primeiro plano. No caso evangélico significa nada mais que promulgar a salvação do homem sem qualquer custo, pagamento, indulgência ou algo similar. O céu não tem preço, não está e nunca esteve a venda.  Não importa o credo, qualquer sacerdócio deve honrar sua titularidade.
O vetor apresentado por algumas igrejas ‘evangélicas’ mostra certo desequilíbrio em suas pregações, focando exclusivamente na prosperidade, neste caso deixa de ser Deus o sujeito da ação, tornando-se servo e não Senhor. Seria este o evangelho legítimo?
Não se tem noticia de que qualquer apóstolo, seguidor dos passos de Jesus, se tenha tornado rico, quiçá milionário, aliás, o exemplo maior vem do próprio Cristo que segundo a bíblia ‘ não tinha onde repousar a cabeça’ e cuja dedicação foi valorizar pessoas, em especial as excluídas.  Mais uma vez na História o homem quer valer-se de Deus para ser maior e melhor que o próprio, acima de princípios e conceitos do bem e mal. Não se pode servir a dois senhores ao mesmo tempo, eis a questão. A quem servem? O tempo se encarregará de mostrar, mas ao saber dos desvios devemos denunciá-los, sim! Ficamos também com a certeza consoladora de que contra fatos não há argumentos, quem viver verá o gran finale, para bem de todos e felicidade geral, em nome de Deus.

Rogéria Gomes / Jornalista e escritora
Autora do livro As Grandes Damas
Contato: grandesdamas@hotmail.com




15 de novembro de 2012

Release do romance Enseada do Segredo, publicado no jornal A Tarde. Salvador – 15/11/2012. Populares, página 4.


Um suave mergulho nas enseadas dos nossos segredos mais profundos

PATRÍCIA LINS 

“Enseada do Segredo”, livro de Morgana Gazel, tem como foco uma mentira familiar e se situa num subúrbio imaginário do nordeste brasileiro, no período da ditadura militar. “Os personagens não são separados em categorias distintas de bons e de maus. Todos atuam sob o comando de sua humanidade. Apresenta, além do cunho psicológico, um aspecto educativo. O que se justifica; pois a educação é uma condição necessária para uma condução mais harmoniosa do homem no mundo”, conforme expressa a própria autora. 

Aparentemente, trata-se de um simples romance, porém, a estrutura escolhida foi apenas um recurso literário para ambientalizar o mergulho que, ao lê-lo, damos em nossas subjetividades. Com o recurso da terceira pessoa e de uma linguagem bastante acessível, leve e envolvente, a história é narrada. E os diálogos diretos, que acontecem em vários momentos da trama, criam um clima de realidade. 

Mistério, dia-a-dia, dramas, conflitos, romances, paixões, descobertas, mudanças e transformações são os cenários perfeitos para encontrarmos a nós mesmos e nos entregarmos a essa leitura empolgante, criativa e muito bem amarrada, em que Morgana Gazel nos guia através da vida de Fred. 

Uma característica marcante é a tensão frequente que envolve Fred, o protagonista. Ele vive uma vida normal, sem grandes razões para questionamentos que contradigam sua realidade. Mas, dentro dele, há um incômodo... Uma sensação... Fred não os sabe descrever e também não percebe que sinalizam as causas de ele desconfiar da mãe, sem que tenha consciência disso. Esta desconfiança transparece em suas atitudes. 

O desenrolar da trama inicial transcorre, mostrando a relação de Fred com o ambiente onde mora, com os amigos, a mãe, tia Zezé, os estudos, a descoberta do amor adolescente, as festas, os mergulhos, os desafios diários, os planos para o futuro e, além disso, sua ignorância do que acontece em seu país; o que, nesta história, lhe chega apenas como notícia. 

Com 224 páginas excitantes, a autora consegue, utilizando-se do que há de melhor em recurso literário, que é a criatividade sem perda do foco na trama, descrever sensações e emoções humanas, onde só nos falta tocar nelas. Morgana Gazel, praticamente, materializa os sentimentos humanos, tornando-os quase palpáveis. Dá para escutar o coração de Fred bater forte por Jéssica; e ela nem sequer se dá conta... É possível sentir o sofrimento de uma mãe zelosa que dá o máximo de si ao filho, o máximo que nunca é suficiente. Fred é um jovem inteligente, tímido, pacato, que gosta do lugar onde mora. E vive aquele mundo, de modo que nada lhe proporciona tanto prazer como mergulhar nas águas da enseada sem perder o fôlego e depois flutuar sob o céu azul! Ali, ele se sente protegido, amparado e fortalecido, como se estivesse no ventre materno, a melhor zona de conforto para todo e qualquer ser vivo! 

O ápice dá-se, num momento em que Fred se depara com algo inusitado: em sua família, escondia-se um segredo! Como consequência do clímax, surgem questões: O que fazer quando percebemos em nós o que tanto condenamos? O que fazer quando nos deparamos com uma verdade que nem sabíamos existir? O que fazer diante de uma grande decepção? Como reagir diante de uma dor profunda e insuportável? Quanto dilema. Quanto sofrimento. Tudo isso após ter sido nocauteado pelo conteúdo desse segredo e pela forma como lhe foi revelado. 

Escrito para ser lido por todas as idades, o “Enseada do Segredo” toca as mentes e os corações jovens e adultos, convidando-os a participar do processo de “humanização do homem”, que é facilitado por cada conduta, diálogo e ação dos personagens. E através de questões estimuladas pela leitura, tais como: estamos preparados para enfrentar a verdade? Diante de desafios que nos levaria a uma mudança real, dispomo-nos a enfrentá-los ou resistimos, acomodando-nos numa zona de conforto e estagnação?... Ante estas e outras questões, afigura-se ao leitor o caráter exploratório que aparece em situações de escolha e tomada de decisões. Ao término da leitura, dá vontade de retomá-la desde a primeira página, na tentativa de, enfim, apaziguarmos as emoções desencadeadas, nesse mergulho sublime nas águas internas do autoconhecimento. Portanto, uma leitura rica e enriquecedora. 

PATRÍCIA LINS / PUBLICITÁRIA, RADIALISTA E RELAÇÕES PÚBLICAS.


11 de outubro de 2012

A Petrópolis que eu vi.


Dia 14/09, estava eu em Petrópolis participando do prêmio literário, promovido pela Literarte – Associação de Escritores e Artistas. No Palácio de Cristal, soaram cânticos de vozes afinadíssimas de um coral, em slides eram exibidas biografias no momento em que homenageados, como eu, recebiam troféus e um público seleto enchia o salão de alegria e aplausos.

No entanto o que me encantou não se restringiu a esta cerimônia que, por si só, poderia ser o tema deste escrito. Meu olhar também não se deteve somente na historicidade dos monumentos locais: o Museu Imperial; a Catedral São Pedro de Alcântara, que guarda o que restou de nosso imperador D. Pedro II e sua família; a Casa de Cláudio Souza, o patrono do Prêmio Literarte, e vários outros. Meu olhar foi atraído por pequenos detalhes que fazem de Petrópolis uma cidade modelo.

Ao subir a serra, parecia que estava sendo levada ao paraíso. Ridículo, não? Assim avaliei o que senti, pois viajara tantas vezes! Em duas dessas ocasiões, fui a Paris e visitei cidades do interior da França e Suíça, também já conhecia algumas regiões do meu país: a Chapada Diamantina, da qual Lençóis é o centro urbano de minha preferência; o nordeste, sul e centro-oeste do Brasil. Naquele dia, porém, enquanto o ônibus enfrentava as curvas, ora quase raspando paredões, ora descortinando despenhadeiros nebulosos, algo me tocou profundamente.

Fui recebida por amigos, um casal de escritores, Sol e Almir, que de imediato me levaram para conhecer o centro da cidade. A princípio não fiquei muito animada, minha atitude mudou logo que comecei a perceber os tais detalhes. Primeiro, o trânsito ordeiro, sem semáforos, o pedestre pisa na faixa, os carros param! Eu presenciara isto apenas na Suíça. Depois caminhei em ruas absolutamente limpas e não vi recipientes com lixo transbordando como ocorre em vários lugares. O povo em geral é circunspecto, porém solidário e, vale ressaltar, gentilíssimo ao ser abordado; diversas vezes pude observar estas qualidades. Outro aspecto digno de nota é a preservação das construções antigas, como a Casa dos Sete Erros, o Museu Imperial, os hotéis e muitas outras. Todas com excelente aspecto, como se tivessem sido recentemente pintadas, os jardins bem cuidados.

Além disso, soube que grande parte da população se dedica à cultura e arte, praticando-as ou apreciando-as. A despeito da temperatura que oscila de amena à baixa, em vez de ficarem em casa, assistindo à TV, as pessoas vão a eventos literários, musicais e a teatros. 


Morgana Gazel - autora de romances, poemas e contos.

20 de setembro de 2012

‘Memoráveis Mestres’


O centenário de dois brasileiros excepcionais, Nelson Rodrigues e Jorge Amado, tem sido motivo de comemorações de toda ordem, com justa causa. Como poucos, expõem a alma brasileira por meio de raios X que revelam virtudes, defeitos e curiosidades que enaltecem o particular estilo brasileiro de ser.

Nelson Rodrigues e Jorge Amado, além do talento comum parecem ser avessos a comemorações, no entanto não passariam impunes.
Nelson e Amado se vivos estivessem brindariam, neste agosto, um centenário frutífero, rodeados de amigos, fãs, admiradores, com festas por todo lado apesar da discrição que mantinham sobre si e suas obras. A obra eterniza seu criador e podemos sentir claramente esta afirmação na história de ambos.


Nelson foi jornalista, escritor e um crítico feroz da hipocrisia.  Mantinha uma lente de aumento nas mazelas humanas e na sociedade. Escrevia o lado obscuro da humanidade e falava das coisas que geralmente colocamos para baixo do tapete, cujo pano de fundo era quase sempre a morte onde, segundo Nelson, residia o sentido da vida. Razão que o fez ser considerado, por muitos, irreverente e incompreendido.
Expunha as vísceras da alma humana. No teatro escreveu um capítulo à parte, singular, para especialistas criou o teatro rodrigueano, quiçá o universo Nelson Rodrigues, na verdade um jeito todo seu de colocar em cena ‘a vida como ela é’.  Um bom exemplo, entre tantos de seus escritos, é a conhecida peça ‘Vestido de Noiva’, um marco divisório na dramaturgia brasileira. Tamanha a força de suas obras que ainda hoje nos põem a refletir, tempos depois de escritas.

Imortal Jorge Amado, boa praça, bom de papo como ninguém, falou, escreveu e levou aos quatro cantos do mundo o nordeste, sua gente, seu jeito, suas peculiaridades, mostrando um Brasil recheado de uma cultura tão rica e viva, porém desconhecida até seus escritos primorosos. Muito fez por nossa literatura, viveu-a intensamente de fato e direito, deixando um legado tão inquestionável quanto vasto. A maioria delas muito bem retratada não só em TV como em cinema, mundo afora. 

Sua interferência política deu voz ao povo menos favorecido tornando-se deputado federal e criando leis dignas como a do direito autoral e da liberdade religiosa. Sabia o que fazia, apesar da modéstia que se imputava.

A arte se encontra como for, onde for, de que jeito for e tem vida própria, como nos mostra o universo de Nelson e Jorge que, em mundos diferentes, criaram um saber único, revigorando e inspirando os que buscam o caminho da cultura.

Sabiamente diz o notável poeta, Ferreira Goulart “a arte existe porque a vida não basta”, máxima que nos ajuda a trazer o sentimento de um Nelson Rodrigues e um Jorge Amado próximo de nós, absolutos e vivíssimos.

                                                         Por Rogéria Gomes
                                                                        Jornalista e Escritora
                                                             grandesdamas@hotmail.com


Notas:

 1 - Este artigo foi publicado no jornal A Tarde em 08/09/2012.
 2 - Autor da foto de Rogéria Gomes: fotógrafo Marcelo Rissato.

5 de setembro de 2012

Prêmio de Literatura – Literarte 2012 – Petrópolis.

Cabo Frio, 30 de julho de 2012. 


Prezado(a) Sr(a). MORGANA GAZEL, 



É com grande satisfação e júbilo que informamos que após seu nome ser indicado por nossa diretoria, ser avaliado por criteriosa análise e aprovado por nossa Comissão de Conselheiros, vossa senhoria foi aprovado(a), por unanimidade, para receber o Troféu: “Prêmio de Literatura – Literarte 2012”, na categoria Criatividade e Originalidade na Obra, com a obra Poema Mundo.   

O Prêmio é uma distinção feita no âmbito da literatura para escritores, instituições e obras produzidas, sendo comprovadamente o mais magnífico resultado dentre os avaliados. São trabalhos de excelência nas diversas categorias que se destacam em qualidade e importância no cenário regional, nacional e internacional durante o ano anterior. Solicitamos apreciar o release do Prêmio em correspondência anexa. 

A Cerimônia de Premiação será realizada no magnífico Palácio de Cristal, na histórica cidade imperial de Petrópolis, no dia 14 de setembro de 2012, sob total cobertura jornalística da mídia escrita e televisionada, com a presença de diversas autoridades do mundo cultural. (...)

OBRA PREMIADA (clique na foto para ampliá-la):





15 de julho de 2012

Sonhos de Fred, o protagonista do Enseada do Segredo - com interpretação


Sonho I:

Adiante, num trecho mais isolado, deitou-se na areia morna e, de olhos fechados, ficou a ouvir o vai-e-vem das ondas; este som repetia-se cada vez mais distante. De repente, viu um saveiro a deslizar, suavemente, sobre as águas e distinguiu algo muito curioso: no lugar do mastro, havia uma cruz em que um homem, de pé, se apoiava com uma das mãos. Quando o saveiro parou, Fred ficou atônito; apesar de muito mais velho, o homem era ele próprio. O estranho Fred ficou a olhá-lo fixamente... e o Fred que sonhava acordou, assustado, o coração batucando, loucamente, em seu peito. “Ora, foi apenas um sonho!”, pensou, tentando acalmar-se, mas não conseguiria esquecer esta cena por um bom tempo.

Interpretação: 
Trechos importantes: (1) apesar de muito mais velho, o homem era ele próprio; (2) havia uma cruz...; (3) o saveiro a deslizar sobre as águas; (4) O estranho Fred ficou a olhá-lo fixamente; (5) o Fred que sonhava acordou, assustado, o coração batucando, loucamente, em seu peito. Há aí a indicação de um personagem do inconsciente (mar) de Fred. E não está tão inacessível, pois que navega sobre... na superfície. Como a aparência física é a mesma, pode-se pensar ou na dimensão masculina de Fred, assumindo mais idade,  ou em alguém do seu sangue, a quem ele está ligado por fortes laços emocionais (5). Um personagem desejado e temido, que o olha fixamente e o faz acordar assustado.  É possível então que se trate do pai. Fred temeria conhecer o pai? E o que significaria a cruz? A história de Fred responde.



Sonho II:

Ao chegar a sua casa, jogou-se na cama e adormeceu com a roupa da festa. Um sono pesado levou-o, precipitadamente, a um estranho lugar: era uma chapada. Fred estava sozinho e precisava achar alguma coisa que ele desconhecia. Seguiu por trilhas e atravessou riachos. De repente, não era ele, era Wart. Havia um homem ajoelhado a seus pés. Wart gritou: “Não, não faça isso! Você é meu pai!”. Em seguida, Wart segurava uma espada e gritava: “Maldita espada! Não quero essa espada!”. Não era Wart quem gritava, era Fred. Não era Fred, era Wart. As imagens confundiam-se: Fred e Wart. Wart, novamente, gritou “Nããão!” e atirou a espada para o alto. A espada transformou-se numa cruz e subiu, e rolava enquanto subia; ora uma cruz, ora uma espada. Na terra, outro grito de Wart.
Fred acordou; sua roupa molhada de suor e seu coração acelerado. Tentou acalmar-se, dizendo a si mesmo que apenas sonhara com um trecho da lenda do rei Artur. Havia poucos dias, acabara de ler o primeiro livro da série. Foi só isso, ele não deveria preocupar-se.

Interpretação:
Trechos importantes: (1) Fred estava sozinho e precisava achar alguma coisa que ele desconhecia; (2) Wart segurava uma espada e gritava: “Maldita espada! Não quero essa espada!”; (3) Não era Wart quem gritava, era Fred; (4) A espada transformou-se numa cruz e subiu; (5) Na terra, outro grito de Wart. Neste sonho, o tema “pai” está explícito. No romance de T. H. White, Wart renega o poder (espada) para não perder a ilusão de que tinha um pai e encarar a verdade de que é órfão. E “o pai abandonou-o”, assim Fred interpretou ao ler o livro. Fred identifica-se com Wart (3), portanto há uma ilusão a perder, uma imensa dor a sentir. Novamente aparece a cruz, e ela sobe (4), mostrando-se inalcançável como o pai de Fred. Por isso, Fred grita através de Wart (5). O sonho, então, fala do anseio de Fred pelo pai. Por que tanto anseio? E por que a cruz repetindo-se. Ao ler a história de Fred fique atento a isso.
      
Sonho III:
REVELANDO-SE AO MUNDO, Fred pagaria o tributo que devia aos deuses e viveria em paz. Isso, falava-lhe um homem com aspecto de personagem lendário, sentado num grande e antigo salão. Quando a voz tonitruante do homem silenciou, Fred acordou, sobressaltado.

Interpretação:
Fred sentia-se muito mal em relação aos amigos por não lhes ter contado seu segredo, era como se estivesse ocultando sua verdadeira face. Na verdade este mal-estar originava-se nas profundezas do seu íntimo, onde, às escondidas da consciência, configurou-se um drama em que ele transgredia uma lei dos deuses (pais do mundo). Fred apegara-se a esta lei, extremamente rígida quanto à conduta moral, para condenar o pai e assim se proteger da dor por não ter sido escolhido por este pai. Então, uma parte sua, também inacessível à consciência e que compreende todo o drama, diz o que ele tem de fazer para se redimir: deve revelar-se. Note que esta remissão é uma necessidade dele, e os deuses são arquétipos, deuses psíquicos.

Sonho IV:
(...) Novamente, despedia-se a fim de se atirar numa aventura inevitável e, dessa vez, mais temida (...) não se sentia preparado. Não teve tempo, porém, de atentar em seu sentimento; foi assaltado por um forte cansaço e sonolência que o fizeram dormir de imediato. Mas acordou em seguida. Em sua frente, havia um garoto pequeno, de olhos claros, a lhe sorrir. Fred tentou tocá-lo; o garoto desvaneceu-se e surgiu adiante. Mais uma vez, Fred aproximou-se e estendeu a mão para o tocar; o garoto voltou a sumir e reapareceu muito mais longe. A criança parecia estar sendo levada pelo vento ou coisa semelhante. Fred começou a correr para alcançá-la, no entanto acordou de verdade, atordoado, com os olhos abertos no escuro da noite fria.

Sugestão: Interprete, é fácil. Basta ler o livro.
Nota: Trechos do romance Enseada do Segredo.


Morgana Gazel, psicóloga e escritora.
Autora de romances, poemas e contos.