18 de novembro de 2011

"Enseada do Segredo" / Sinopse


Uma enseada, o trem, a igreja, cenário de segredos. Quando descobre o segredo de sua família, Fred é inundado por sentimentos com os quais não sabe lidar. Coloca em dúvida a própria identidade. Incapaz de suportar tal situação, no ambiente em que vive, abandona tudo e vai para outro país… 

Entretanto a realidade que se desvelou com a revelação do segredo acompanha-o, de modo que ele não consegue relacionar-se normalmente com outras pessoas. Todavia passa por experiências que o ajudam a amadurecer. Já acostumado à condição de estrangeiro solitário, é surpreendido por uma nova circunstância que o obriga a enfrentar íntimas verdades e voltar definitivamente para sua terra.

Essa história pode levá-lo a identificar-se com a vivência externa ou interna do protagonista. A primeira é definida por suas atitudes, a relação com a família, com os amigos e com a garota de quem ele gosta, as disputas esportivas, as festas, a estada no exterior. A segunda desenrola-se por trás da primeira e se manifesta nos sentimentos inconfessados ou incompreendidos e nos estranhos devaneios dele.

Um leitor, que aparentemente se identificou mais com a última vivência, comentou: “Fiquei fascinado com o livro, nunca tinha lido algo do gênero; um romance onde se explora questões da psicologia. Você nem imagina o quanto aprendi sobre mim lendo as aventuras de Fred.”


Caro visitante


Quero compartilhar com você um fato curioso relacionado a meu primeiro romance, o Enseada do Segredo.

Numa ocasião, cheguei à conclusão de que escrever histórias inventadas é o que mais quero fazer no curto tempo que me resta de vida, na melhor das hipóteses, trinta anos, muito pouco para quem gostaria de viver por toda a eternidade. Fiquei então aguardando uma “inspiração divina”, pois jamais escrevera ficção, minha experiência era com textos acadêmicos. No entanto não tinha muita esperança em ser atendida porque minha relação com Deus sempre foi meio problemática; não o aceito como dizem que Ele é. Por isso recorri ao Deus que eu própria inventei, naturalmente à minha semelhança, em vez de recorrer Àquele inventado pelos pregadores religiosos, à semelhança deles. Santo Deus, o meu, já me afastei do que me incitou a escrever esta nota! Voltando ao que comecei a contar, enquanto esperava a dita inspiração, lia romances com olhos de aprendiz, comprei uma nova gramática, um livro sobre comunicação, novo dicionário, tomei um curso relâmpago de escrita literária, comecei a descrever ambientes e esbocei um conto.

Dois meses passaram e nada aconteceu até que, ao me dirigir a um restaurante, de lá iria para meu consultório, minha mente foi invadida por um pensamento que se repetia sem parar: “Volte para casa”. Claro que não voltei, isto é, não voltei de imediato, pois sou uma pessoa responsável! No restaurante, o pensamento insistiu tanto que resolvi barganhar: Tudo bem, eu volto se todos os clientes estiverem absolutamente tranquilos! Telefonei e, para minha surpresa, nenhum deles fazia questão de minha companhia naquela tarde. Voltei e, ao chegar a casa, senti um sono tão danado que me joguei na cama sem sequer trocar de roupa. Acordei, à noite, com o enredo de uma história, o perfil psicológico dos personagens principais, seus nomes e os títulos dos primeiros capítulos.

Assim nasceu o romance, Enseada do Segredo. Óbvio que tenho uma explicação psicológica para isso, mas prefiro pensar que fui agraciada pelo Deus que inventei. O que você pensaria?

Ser ou não ser - eis a questão...



Ser ou não Ser - eis a questão.
Será mais nobre sofrer na alma
Pedradas e flechadas do destino feroz
Ou pegar em armas contra o mar de angústias -
E, combatendo-o dar-lhe fim? Morrer, dormir,
Só isso. E com o sono - dizem - extinguir
Dores no coração e as mil mazelas naturais
A que a carne é sujeita; eis uma consumação
Ardentemente desejável. Morrer - dormir -
Dormir! Talvez sonhar. Aí está o obstáculo!
Os sonhos que hão-de vir no sono da morte
Quando tivermos escapado ao tumulto vital
Nos obrigam a hesitar: e é essa reflexão
Que dá à desventura uma vida tão longa.(...)


In "Hamlet" (ATO III - CENA I) // William Shakespeare (1564/1616)

Século Trinta e Três


Nada de ideias rebuscadas
Nada de tempo gasto
inutilmente.  Desconsideramos
os sentimentos, o ser, o não-ser
o inapreensível, os devaneios.
A humanidade há de esquecer
filósofos, artistas, aqueles
amantes do imponderável.
A deusa Tecnologia
pés, mãos, olhos, corações
ela fabrica.
O corpo alimenta-se de pílulas.
O sexo é livre, on line
em qualquer idade.
Basta desejar.
Se enjoar
muda de internauta.
Casamentos vendidos
em sites, aos milhares.
A História dos Antigos
repousa bem guardada
no cemitério dos esquecidos.
Dos filósofos, avós da humanidade
os civilizados dizem a sorrir:
Coitados, quanta bobagem
crianças com palavras a brincar.
Heráclito?!
Entro, sim, no mesmo rio.
Antes de dois mil
o Brasil descobriu:
“É proibido proibir.”
Sócrates, o inquiridor,
“Conhece-te a ti...”
Parece nunca ter visto
a si mesmo num espelho!
Conhecer mais o quê?
Sabemos tudo da célula
do mundo dentro do átomo
e do que, fora dele, se expande.
O universo é finito ou infinito?
Eis a questão que persiste.
A velhice há muito não existe
os cansados da vida tomam pílulas
e vão servir de adubo em jardim.
O corpo é o templo do prazer
rostos belos, cópias de modelos.
Peles sensíveis a estímulos
oriundos de qualquer parte
do planeta-rede on line.
Eros habita a imagem.
Até casais que moram juntos
na tela vão buscar orgasmos.
Deleitam-nos também as artes
música, cinema, teatro, literatura.
Cito o poema que mais me apraz:
“Ah, o sol!
Raios dourados
perfuram o azul.”
Os romances, os longos,
chegam a dez telas-páginas!
Um trecho do último que li
meu cérebro gravou:
“O herói olha pasmo. Seu pênis
pequeno, encolhido. Firma-se.
Diante da musa. Ela não o vê.
Canta. Enquanto usa o vibrador.”
 Não valorizamos a sintaxe
construímos conceitos isolados.
Nossa mente apreende-os
sem operações complicadas.
Assim o cansaço é tão mínimo
não atrapalha as tarefas diárias.
Falo dos Nobres
não dos Impedidos
executores de atividades
que as máquinas não fazem.
Estes às artes não se dedicam,
atendem felizes nossos caprichos.
À noite recolhem-se em vilas
suas casas idênticas em círculos.
A chave é o código de identidade
sob a pele de quem ali reside.
Eles também usam pílulas!
Não temos doenças d’alma ou stress
dos quais tanto sofriam os Antigos.
Nenhum de nós grita de entusiasmo
nem chora as perdas necessárias.
Não há destino difuso nem metas
a ocupação é determinada
segundo as habilidades.
Só uma coisa é proibida:
A leitura das obras dos Antigos.
Salvo aos bibliotecários
- sou um deles -
e aos analistas das comunidades.
Nosso mundo é mais que perfeito!
Esta lágrima no teclado
veio de um olho irritado.
Vou tomar a pílula de dormir
amanhã estará recuperado.


Morgana Gazel